Uma vítima de bullying não é protagonista da sua própria história

Por Luís Moreira, ex-alvo de bullying  

08/10/2019 

Blog "Famílias No Bully"

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A minha história

O meu nome é Luís Moreira, tenho 31 anos, e durante 10 anos fui vítima de bullying. 

A partir dos meus 25 anos já pude começar a dizer “durante 10 anos”, por oposição a “durante metade da minha vida”. Dizem-me que soa melhor assim; o que significa, portanto, que a gentileza de suavizar o relato fica, naturalmente, ao cuidado da vítima.

Começou quando era novo, por ser mais gordo do que os outros miúdos. Habitualmente era na escola, mas também me lembro do meu irmão gozar comigo nas férias de verão, porque, no entender dele, a minha figura em cuecas de banho era demasiado hilariante. Acho que, por causa disso, usei t-shirts na praia durante muito tempo. 

Rapidamente o objecto de gozo passou a ser outras coisas como usar óculos, usar aparelho nos dentes, ser tímido e ser introvertido — o que é bastante natural, sobretudo se formos humilhados com regularidade. Mas os abusos (tal como o vocabulário) evoluem e tornam-se mais elaborados. Ainda durante a escola básica eu era chamado de “maricas” e “paneleiro”. Imagino que as crianças imitavam o que ouviam os adultos dizer; não sei dizer se uma criança de 7 anos sabe o que quer dizer “paneleiro”, apenas sabe que é ofensivo. Na verdade, é só o que precisa de saber.

Lembro-me de ter pavor do corredor da escola porque que era empurrado contra os cacifos 

Por isso, aprendi caminhos alternativos que me obrigavam a um desvio e a demorar o dobro do tempo a chegar à sala de aula. O problema era o meu atraso, não o motivo pelo qual eu chegava atrasado. Lembro-me de evitar as casas de banho porque me atiravam contra a sanita e empurravam a minha cabeça contra a minha própria urina e, claro, por causa disso mesmo, aprendi a controlar a minha bexiga para só ir à casa de banho ao final do dia, quando chegasse a casa. 

O problema era a minha bexiga, não o motivo pelo qual eu a controlava. Lembro-me de haver encarregados de educação que achavam inadmissível a escola permitir que eu partilhasse o balneário com os meus colegas de turma. O problema era acharem que eu era gay; eu não sabia se era ou não. 

Lembro-me de ir para a Ericeira num fim de semana de desportos radicais e de não haver um colega que quisesse ficar na tenda comigo. Lembro-me da minha directora de turma ter dito à minha mãe que era bom eu usar óculos porque me “dava um ar mais masculino”. Lembro-me de ter sempre lenços para limpar a saliva da minha mochila, porque não queria que a minha mãe descobrisse que me cuspiam. 

Lembro-me de evitar o pátio da escola porque a minha cabeça parecia servir de baliza (ou de alvo) de todas as bolas — as que doem mais são as de futebol, por causa da força do chuto e da velocidade. Lembro-me de estar sentado duas horas e meia numa reunião da Associação de Estudantes em que os meus colegas, e alguns amigos, descreveram e desenharam, no quadro de giz, o quanto eu deveria gostar de sexo anal. 

Lembro-me de adormecer a lembrar-me de todas estas coisas e lembro-me de rezar a Deus para não acordar no dia seguinte.

Lembro-me de desejar, com todas as minhas forças, ser invisível. Lembro-me de pensar, planear e verbalizar a vontade que tinha de me matar, e lembro-me da minha mãe, assim que soube disso, me bater, no mais franco desespero de não saber o que fazer com um filho que não quer viver. E lembro-me, também, do dia em que comecei a esquecer-me de tudo isto. Foi no dia em que comecei a falar.

Mais tarde, muito mais tarde, acabei por perceber que a única fragilidade que alimenta o bullying é o silêncio

Enquanto vítimas de agressão, aprendemos a mascarar as nossas fragilidades, porque sabemos que servem de munição. Aprendemos a lamber as nossas próprias feridas, em silêncio, em segredo, escondidos, envergonhados, sem nunca deixarmos que vejam o quanto nos magoaram. E, sem percebermos muito bem como, estamos a entregar de bandeja todas as armas que os bullies precisam.

Reflexão sobre o bullying

Nos EUA há um movimento anti-bullying chamado “It Gets Better”, o que quer dizer qualquer coisa como “vai ficar tudo bem” ou “vai melhorar”. Eu não sei se isso é necessariamente verdade, e também não sei se concordo com o nome, porque sugere uma atitude passiva por parte da vítima. Esperar que as coisas melhorem, esperar por dias melhores. O que eu acho que acaba por acontecer é que ficamos mais fortes. Ou aparentemente mais fortes. Eu sei que comecei a ficar mais forte quando decidi combater o bullying — e foi a conversar sobre ele. Eu sei que, se iniciarmos o diálogo, estamos a mudar a conotação das palavras, estamos a contribuir para mudar as mentalidades, o tom das nossas conversas e, claro, a nossa atitude. 

A começar, por exemplo, com a palavra “vítima”. O carácter da palavra “vítima” é, em si mesmo, negativo. Uma vítima, se detalhar o que lhe aconteceu - como, aliás, eu acabei de fazer - é, muitas vezes, interpretada como chorona, exagerada ou lamechas. Não é surpresa, portanto, que no relato da vítima, ela se coloque habitualmente em último lugar. Aprende a fazê-lo. Uma vítima de bullying nem sequer é protagonista da sua própria história. É uma preocupação para os pais, uma chatice para a escola e uma estatística para o governo.

Um verdadeiro combate ao bullying é, em si mesmo, um combate à ignorância. E deste combate sairemos todos vencedores: as vítimas, os pais das vítimas, os amigos, os professores, os auxiliares e, sim, em certa parte, os agressores. Estamos a impedir que a popularização do tema gaste o assunto, para não termos reacções como “Oh, não, outro artigo sobre bullying”. Uma arrogância de quem acha que sabe do que se trata, porque já ouviu falar um bocadinho sobre o assunto. Temos de falar sobre bullying, é o nosso dever.  

Uma mensagem para os Pais

Para os pais que me estejam a ler, a minha mensagem é simples: falem. A ansiedade dos pais vem, muitas vezes, por não saberem exactamente o que devem dizer. É uma ansiedade, e uma dor, que se cumula com a indisponibilidade dos filhos de falar sobre estes episódios. No meu caso, havia uma vergonha de não corresponder à expectativa que os meus pais tinham sobre mim (uma ficção que, na minha cabeça, correspondia à verdade), e o meu silêncio mascarava o embaraço de ter sido fraco, por não me ter conseguido defender. 

Se tivéssemos falado na altura, teria percebido que eles estavam tão perdidos quanto eu, tão assustados, e que não havia expectativa nenhuma maior do que a que eles verdadeiramente tinham para mim — que fosse feliz. O diálogo só começa se for seguro, se houver confiança e se não houver consequência. E, sobretudo, com coragem. Encorajem. Se não souberem o que dizer aos vossos filhos, comecem por aqui. Leiam este texto em voz alta, como um exemplo de alguém que começou a sentir-se melhor a partir do momento em que começou a falar.

Talvez tenha deixado de ser vítima. Ou ainda o seja, mas de outras coisas; da minha memória! E, sim, do meu silêncio. É por isso que escrevo este texto - é o meu dever. Estou como o Cesariny: “Entre nós e as palavras, os emparedados / Entre nós e as palavras, o nosso dever falar.”

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